Qual a sua personalidade?

April 17, 2018

 

Um dos temas que mais causava polêmica durante as aulas de psicologia era o conceito de personalidade e como medir e classificar algo tão complexo.

 

No mundo executivo tanto quanto de coaching, noto que a prática de classificar o tipo de personalidade é algo disseminado e pouco questionado. As pessoas aceitam o fato como algo normal e os resultados são, na maioria das vezes, colocados como a verdade sobre a pessoa avaliada.

 

Nos últimos anos também existe um movimento contrário a estas práticas, argumentando que o próprio conceito de reduzir uma pessoa complexa a alguma classificação é totalmente pseudo-científico.

 

Para aumentar a polêmica, muitos testes e avaliações são vendidos no mercado como teste de personalidade, o que por si é uma prática antiética e ilegal – gerando confusão ao consumidor. Tecnicamente um teste de personalidade não pode ser aplicado por ninguém que não seja psicólogo (o que nos EUA, por exemplo, significa apenas alguém com PhD em Psicologia).

 

Para os outros testes aplicados por aqueles que não são psicólogos, novos  termos foram criados: avaliação de temperamentos, preferências, etc.

 

A questão é como estes testes são vistos pela própria psicologia.

 

Diferentes percepções

Algumas escolas de pensamento alegam que os testes são válidos porque conseguem mapear em um curto espaço de tempo os padrões de funcionamento de alguém, o que levaria muito tempo para ser observado durante o processo com algum facilitador.

 

Outras escolas acreditam que o teste é mais do que um mapa, pois seres humanos não mudam, então o teste mostra a verdade sobre a pessoa, e que decisões feitas em cima destes testes (de promoção ou não, de parceria ou não) serão feitas com base em certeza.

 

Ainda temos outras escolas que argumentam que, com o conhecimento mais inovador da neurociência, é impossível alegar que alguém é A ou B, pois contemos em nossa “personalidade” muito mais padrões do que podem ser testados, contendo até padrões que são totalmente antagônicos.

 

No seu livro The Cult of Personality, a jornalista Annie M. Paul expõe a indústria que foi criada por cima da idolatria de testes e o quanto estes têm sido usado de forma a gerar mais desinformação do que informação.

 

Dweck

Para complicar (ou explicar) um pouco mais, temos agora a teoria do Growth mindset vs. Fixed mindset, da Carol Dweck. Ela explica que pessoas com um growth mindset (mentalidade de crescimento) são pessoas que reagem a situações entendendo que tudo é uma questão de aprendizado. São pessoas que analisam erros, aceitam desafios e têm maior habilidade de aprender. Elas entendem que os erros são frutos de necessidade de maior aprendizado.

 

Por outro lado, a pessoa de fixed mindset (mentalidade fixa) tende a desistir mais facilmente, evita desafios e tem maior dificuldade com mudança. Ela acredita que erros acontecem porque ela não é boa e não nasceu com certa habilidade e isto é imutável.

 

Então, podemos afirmar que pessoas com growth mindset teriam mais problemas em aceitar como alguns testes de personalidade são usados hoje (pois não veem o ser humano com algo fixo e imutável).

 

Pessoas com fixed mindset seriam mais propensas a ver os testes de personalidade como a verdade, acreditando que cada um pode ser categorizado, já que o ser humano não muda.

 

E agora?

Mais do que discutir quem está certo ou não, o importante para o consumidor e para o profissional que faz uso dos testes é: como estes testes estão sendo usados?

 

Seja no trabalho de coaching sério ou de psicologia, sabemos que toda fonte de informação é bem vinda. Porém, sabemos também que todo teste é apenas um teste – não é a verdade final sobre ninguém. É apenas um mapa.

 

E um mapa serve apenas para mapear possíveis padrões de comportamento. Alguns desses comportamentos precisam ser mantidos, enquanto outros vão precisar ser trabalhados, transformados em comportamentos mais produtivos ou satisfatórios para a pessoa.

 

O problema é quando se confunde o mapa com o território.

O problema é quando alguém com pouco conhecimento de comportamento humano usa o mapa para rotular e julgar os outros, como se conhecesse toda a verdade deles.

 

O problema é quando empresas decidem segregar pessoas de uma personalidade X no refeitório, obrigando-as a sentarem juntas.

 

O problema é alguém com grande potencial de liderança achar que não consegue ser líder,  porque algum teste deu resultado negativo.

 

O problema são as “estórias” criadas pelos outros em função de algum rótulo que receberam como resultado do teste.

 

Na minha carreira, já atendi muitas pessoas que chegavam desanimadas e desencantadas, pois estavam sobre a opressão de algum rótulo que receberam. E o mais triste é que acreditamos nos rótulos que recebemos.

 

Ao questionar os rótulos e o mau uso que foi feito desses testes, as pessoas se sentem libertas para crescer de novo. E crescem, e desenvolvem.

 

Lembro aqui um caso de uma empresa onde o executivo passou por um processo de coaching e a chefe dele não entendia como que ele poderia ter mudado tanto, pois o novo jeito dele de agir não batia mais com os resultados do teste!

 

Ao invés de aceitar o crescimento dele, ela tentava provar que a mudança não iria durar, pois o teste não poderia jamais estar errado. O mapa se tornou mais importante do que o território.

 

Recentemente um motorista caiu em um rio na Europa porque ele estava dirigindo apenas olhando o navegador no carro, e neste aparecia uma ponte. Na vida real, a ponte não existia.

 

O mapa é apenas um mapa, com todas as suas falhas.

 

Profissional, lembre-se: um mapeamento de padrões existe apenas para mostrar uma forma de funcionamento, não o que a pessoa é.

 

Consumidor, lembre-se: um teste é apenas uma foto momentânea que mede algumas coisas, mas não mede muitas outras coisas. Não representa quem você é.  Você é muito mais que um teste.

 

E se alguém usar o teste como a verdade final sobre você, ou para lhe rotular, você já sabe que está lidando com alguém que tem pouco conhecimento. E não há nada mais perigoso do que pessoas de pouco de conhecimento influenciando a vida dos outros.

 

 

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