

Darwin é um dos personagens mais famosos de toda a humanidade, mas por pouco não se tornou um grande desconhecido. O medo que tinha das possíveis críticas que receberia da comunidade científica mantiveram a teoria da evolução engavetada durante anos. Foi só quando ele soube que outro cientista estava trabalhando numa teoria similar que Darwin teve finalmente a coragem de publicar a sua. O medo de terminar a vida desconhecido foi maior que o medo de que rissem dele. Quando Mark Spitz anunciou que ganharia 7 medalhas de ouro, todos riram. Quando Einstein disputou as teorias de Newton, muitos riram. Quando Charles Schwab anunciava aos investidores que era melhor venderem suas ações do mercado financeiro pois algo drástico iria acontecer, alguns riram dele. o ano era 1929.
O que faz algumas pessoas vencerem e prosperarem, apesar das críticas, enquanto outras se deixam abater? Até que ponto as críticas conseguem afetar a performance individual?
Chegamos ao ponto da história da humanidade no qual o movimento da globalização criou uma economia tão competitiva que só o que interessa é o "bottom line"- ou seja, a criação de riquezas. Fala-se muito da necessidade de uma distribuição mais egalitária de riquezas, mas essa distribuição só pode acontecer numa sociedade com empresas que geram mais e mais riquezas. Gerar riqueza no século XXI é fruto da capacidade de criação e inovação de mentes empreendedoras. Para se prosperar é preciso estar na frente e , para isso, é preciso ser mais criativo e inovador do que a competição. Para que alguém seja criativo e inovador, é preciso que tenha a habilidade de ousar e, para ousar, é preciso que não se deixe abater por críticas alheias. Conclui-se, portanto, que a habilidade de saber lidar com críticas afeta a geração de riquezas de um indivíduo e, como resultado, de sua empresa, pois toda empresa é apenas tão boa quanto as pessoas que a compõem.
Que fique claro que não estou falando aqui da crítica construtiva (apesar de esta ser bem rara), e sim da crítica destrutiva, que representa a desproporcional maioria das críticas que damos e que recebemos. Na verdade, toda crítica nada mais é do que uma opinião pessoal mascarada como verdade universal. Na grande maioria das vezes ela não serve para nada mais do que servir aos caprichos daquele que critica. Toda opinião que os outros dão sobre você representa a percepção deles, mas não representa quem você é. O perigo é quando você deixa que esta percepção alheia se torne a sua realidade. Um pesquisador de criatividade nos EUA fez um estudo com crianças da 1a. série. Ele pediu que elas fizessem um desenho e depois perguntou quem achava que era um artista. Todas levantaram as mãos. No ano seguinte, na 2a. série, ele fez a mesma experiência. Metade levantou as mãos. No ano seguinte, na 3a. série, apenas alguns alunos levantaram as mãos. Isso é uma mostra do processo de introjeção - quando internalizamos as críticas dos outros e deixamos que afete a nossa percepção de nós mesmos, afetando a nossa identidade. Da mesma maneira que muitas crianças deixaram de acreditar que eram artistas provavelmente devido as críticas que foram recebendo durante os anos, pense quantos talentos você tem que estão abafados simplesmente porque alguém lhe criticou um dia.
Existe uma série de motivos pelo qual somos tão suscetíveis à críticas: o medo pré-histórico de ser rejeitado pelo grupo (e, com esse medo, o desejo de querer agradar aos outros); o fato de termos crescido ouvindo muito mais críticas do que elogios; o medo de que descubram que não somos perfeitos (como se isso ainda fosse segredo!); a conclusão radical de que quando não somos perfeitos é porque temos algum defeito inato; auto-estima insegura devido à nossa própria falta de reconhecimento de nossos talentos; viver numa sociedade onde se julga a pessoa quando o seu comportamento é inadequado, ao inves de se julgar apenas o comportamento ( o que nos faz ter a ilusão de que sempre que fazemos algo que não dê certo é porque o nosso ser, como um todo, é ruim).
O que se torna necessário então é um plano de defesa contras as críticas. A primeira regra a lembrar é que toda crítica é projetiva, ou seja, ela tem mais a ver com quem critica do que com você. Pode-se dizer que 90 por cento das críticas que ouviu na vida não tinham nada a ver com você, e sim com os medos e necessidades de quem criticava. Como essas necessidades mudam com o tempo, você pode ser criticado hoje por algo que talvez seja elogiado amanhã, pela mesma pessoa. As pessoas se esquecem das críticas que fazem, mas se você se deixar influenciar, talvez tome decisões infelizes que podem afetar o resto de sua vida. O importante então é lembrar que as críticas são passageiras, mas você permanece.
Outra técnica de defesa é perguntar de quem vem a crítica. A única crítica construtiva vem daquele que já atingiu sucesso, caso contrário é apenas uma opinião pessoal que pouco tem a ver com a realidade. Imagine alguém que sempre foi empregado criticar a sua decisão de abrir uma empresa. Faria sentido? Você ouviria conselhos amorosos de alguém que não consegue fazer um relacionamento durar mais que algumas semanas?
A terceira opção de defesa é lembrar que o pessimismo é uma praga mundial e já se tornou parte do paradigma coletivo. A crítica nada mais é do que um foco pessimista. Toda situação é multi-facetada, podendo ser vista de várias maneiras, mas o pessimismo já é um habito tão inconsciente que as pessoas são experts em ver somente o lado negativo. Isso quer dizer que o lado positivo não existe? Não, quer dizer simplesmente que a habilidade de ter uma percepcão positiva está atrofiada no pessimista. Ouvi uma entrevista com a cantora italiana Laura Pausini há alguns dias, que teve o carinho de estudar português para se comunicar com os seus fãs brasileiros. Ao invés de apreciá-la pelo seu esforço, alguns se limitaram a criticar a sua fluência!
Outra opcão na defesa contra as críticas é a noção de que existe um motivo maquiavélico que motiva as críticas na sociedade e a maioria o faz inconscientemente. Este é o caso da crítica gerada simplesmente para impedi-lo de fazer algo brilhante. Sempre que você cria algo novo que o destaque, há uma resistencia automática das pessoas a sua volta, pois um possível sucesso traria à tona todos os fantasmas dos sonhos não-realizados de todos eles. Assim, é mais confortável para ou outros que você não cresça, não tenha sucesso. Os críticos preferem que você se mantenha inseguro como eles. Sim, eles riem, mas riem de nervosismo, riem de medo que você consiga, pois isso os deixaria para trás.
Além das opções acima para se defender da crítica alheia, é imperativo que trabalhemos no nosso processo interno de reforço de nossa identidade. Muitas pessoas passam a vida vivendo com metade de sua identidade, metade de sua força, metade de seus talentos, pois a outra metade está coberta pelas críticas recebidas (e aceitas como verdade). Muitos vivem sua vida inteira sem descobrir o que trazem de especial dentro de si. Portanto, além de se defender das críticas alheias, é preciso reforçar a percepção que temos de nós mesmos, descobrindo e definindo, sem medo, o que temos de bom e especial - independente do que os outros dizem. Quanto menos reconhecemos o nosso valor, mais fracos somos contra as críticas. Ha um provérbio africano que diz: Se não há inimigo interno, o inimigo externo não pode nos fazer mal.
O que é real nas nossas vidas é que existe um herói dentro de cada um (se não existisse você já teria desistido da vida). Traga esse herói a tona. Aprenda a ousar. Se os outros rirem de você, lembre-se que eles riem de nervosismo, do medo que você tenha sucesso. Além disso, você estará em boa companhia - todos os gênios da humanidade passaram por isso . Os críticos riem de tudo o que é diferente, mas para se ter sucesso é preciso ser diferente! O preço que se paga é que você deixa de ser comum. A recompensa é que você deixa de ser comum.
Arnold Schwarznegger, quando deixou a Austria para os EUA, decidiu que não ia ser comum: "As pessoas na Austria riam de mim, quando eu dizia que ia para Hollywood me tornar uma estrela. Nos EUA riam do meu sotaque, os agentes riam do meu nome. Os anos se passaram e, de repente, eles pararam de rir."
Fonte:Jornal Valor Econômico